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Os porquês do meu cavalo

Os porquês do meu cavalo

Por que o cavalo? Porque o cavalo é aquele que se oferece, é oferenda, é carne para ser compartilhada, é o Corpo de Cristo, é o Cálice sagrado.
Por que o cavalo? Porque o ator é o cavalo do personagem, o terapeuta é o cavalo do paciente, o amante é o cavalo do amado, o médium é o cavalo do espirito, e nós somos cavalos de Deus.
Por que o cavalo? Por que o cavalo? Por que o cavalo? Porque o cavalo arquetípico é portador da morte e da vida, é a memória do mundo, é a grande nave que nos conduz a nosso destino.
O cavalo nos lembra que somos corpo, somos vísceras e não seríamos sem ele, é a eterna dança entre corpo e alma que modela e preenche de história e de lembranças cada átomo que nos acompanhou durante algum tempo nessa jornada.
Estava eu sentada sobre uma sepultura, ao lado de Carmem Miranda e Kafka, quando vi entrar caminhando o cavalo em questão: Maria Alice Vergueiro, que com a mesma generosidade dos cavalos simbólicos se colocou à disposição de nossos olhares, de nossas almas, de nossos desejos ocultos para que imolássemos o cavalo. 
Fazia um ano que havia perdido minha avó, uma grande representante de força, sim, um ano sem seu cavalo, mas uma vida preenchida de seu espirito. E esse é outro dos trunfos do cavalo, ele permite que convivamos com ele, que olhemos em seus olhos e isso transmite uma mensagem que se faz carne, que humaniza e nos abre para o divino.
Porque o cavalo não nega a sombra, ele faz parte dela, ele não nega a luta, ele se encanta com a possibilidade de interação das forças, ele não teme, ele se entrega.
Durante um tempo infinito, vi passar o amor, a juventude, a desilusão e a sabedoria. Encontrei-me com o Louco do tarot se entregando sem medo do caminho, com a Imperatriz que semeia a terra porque faz parte dela, com a imprevisibilidade da Roda da Fortuna que não julga o desce ou sobe, mas acima de tudo me encontrei com o Arcano sem nome (XVIII), que está sempre disponível para ceifar o que precisa ser transformado, o Arcano que renova, que corta, regenera e permite a continuidade da vida. 
Encontrei no palco velhos amigos e muitas referências, o cavalo do El Topo, o cavalo da Mulher sem umbigo, o cavalo das árvores genealógicas, o cavalo Jodorowsky, no qual minha alma encontra abrigo tantas vezes. Jodorowsky, que me permitiu cavalgar ao encontro dessas pessoas tão maravilhosas, como Maria Alice VergueiroLuciano Chirolli e Carolina Splendore Cameron, entre outras.
Nesse ritual me conectei com a potência de existir, pois é sempre diante da morte que a vida pulsa com mais intensidade. Ensaiar a própria morte é rever a vida, re-significar, amadurecer o fruto que cura a árvore.
Por que o cavalo?

Texto Daniela Pinotti Maluf
Imagem Leonora Carrington Auto-retrato 1938


Publicado por Marcelo Maluf em Quarta, 13 de maio de 2015 Marcadores: Maria Alice Vergueiro, Why the horse?, teatro brasileiro, Alejandro Jodorowsky, Daniela Pinotti