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Livros de colorir e a terapia

1-   Quais benefícios os livros de colorir para adultos proporcionam? Eles são realmente eficazes para diminuir o estresse?

Os livros de colorir podem ou não trazer benefícios. Os benefícios não estão no livro propriamente dito, e sim no tipo de interação que se possa ter com eles. Creio que cometemos um grande equívoco quando dizemos que o objeto tem o poder de fazer alguma coisa, a não ser que sua função já venha pronta, como no caso de um ventilador, que quando ligado produz vento, mas um livro de colorir não faz nada sozinho. Já a pessoa que pinta pode ter o objetivo de reduzir o estresse naquele momento, assim como quando joga algum aplicativo no celular, ou preenche palavras cruzadas, etc. Portanto, a redução do estresse imediato pode ser atingida, mas os fatores do estresse não serão eliminados e muitas vezes nem sequer conhecidos por aqueles que estão colorindo.

 

2-   Você acredita que esses livros são apenas uma moda passageira ou as pessoas que realmente gostam vão continuar com essa prática?

Sim, é claro que eles são uma moda, mas algumas pessoas poderão gostar dessa prática e a manterão como um hábito.

 

3-   Eles podem ser considerados um tipo de terapia?

A palavra terapia significa tratamento, cuidado, e por isso os livros de colorir não podem ser considerados um tipo de terapia, pois ele não trata e nem cuida de ninguém. Embora as pessoas possam fazer uso desse instrumento para ter um momento agradável, um certo relaxamento, uma possibilidade de se focar em alguma coisa prazerosa, o que é bastante positivo, mas ainda assim não é terapia.

 

4-   A pintura pode ser um canal para exercitar a criatividade e obter mais autoconhecimento?

Aqui chegamos num outro ponto importante, tudo pode ser um facilitador para o autoconhecimento se o sujeito se posicionar dessa forma no mundo, mas isso depende exclusivamente da postura do sujeito e não do objeto. Se eu quiser usar um livro como “Cem anos de solidão”, do Gabriel Garcia Marques, para fazer uma reflexão interna sobre o passar do tempo, os determinantes familiares e as relações interpessoais, sim tudo isso está disponível na obra, mas só se eu me abrir para isso, caso contrário será apenas mais livro com uma excelente história. Já no caso dos livros de colorir o material vem com quase nenhuma possibilidade de abstração e de criação. Há muitos anos os pedagogos lutaram para extinguir os mimeógrafos das escolas, para que as crianças pudessem criar com seu próprio traço, mas agora os adultos acharam o máximo, simplesmente pintar os traços prontos, então se falarmos de criatividade, seria muito mais interessante que as pessoas desenhassem e deixassem emergir as imagens de seu inconsciente, do que pintar imagens prontas, isso sim facilitaria o processo de autoconhecimento e auto expressão, que também pode ser chamado de criatividade.


5- Existe algum tipo de ligação com o fato de que, quando crianças, todos gostávamos de pintar e desenhar? É uma forma de nos conectar com nós mesmos?

 Quando crianças gostamos de nos expressar, e os recursos gráficos estão frequentemente disponíveis, quando crescemos abandonamos tais recursos, o que é uma pena. Por isso, os livros de colorir se forem vistos como um primeiro passo na direção de voltarmos a nos autorizar a usar os recursos expressivos pode ser muito bom, mas lembrando que isso deve abrir as portas para a auto expressão, ou seja, o nosso próprio traço, voltar a ter vontade de modelar argila, pintar, colar, costurar, escrever, para se expressar no mundo com uma riqueza de formas  


Entrevista concedida à jornalista Michele Prado do site NatueLife  


Publicado por Marcelo Maluf em Quinta, 28 de maio de 2015 Marcadores: livros de colorir, terapia, psicologia, terapêutico